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Notícias · 12 de agosto de 2025

Saúde Caixa em risco? Caminhos para preservar uma conquista histórica

Saúde Caixa em risco? Caminhos para preservar uma conquista histórica

SAÚDE CAIXA ROTATIVO2O Saúde Caixa, plano de saúde dos(as) empregados(as) e aposentados(as) da Caixa, representa muito mais do que um benefício corporativo. É uma conquista histórica de empregados e entidades de representação, que simboliza proteção social, qualidade de vida e dignidade no trabalho. Eu, como empregada da Caixa, também sou usuária do plano — assim como meus beneficiários. Por isso, falo não apenas como defensora dessa política, mas também como alguém que depende diretamente dela. Essa identificação é compartilhada por milhares de colegas que, como eu, sabem que o Saúde Caixa é um patrimônio coletivo que precisa ser preservado.

No entanto, esse patrimônio está sob ameaça — e sua continuidade depende de decisões urgentes, responsáveis e comprometidas com o bem-estar de todos que dele dependem.

A origem da crise

Nos últimos anos, os custos do plano para os empregados aumentaram significativamente. Em 2018, a Resolução CGPAR 23, válida para todas as empresas estatais, impôs limites à participação das empresas no custeio dos planos de saúde. Pouco antes disso, a direção da Caixa e seu Conselho de Administração já haviam incorporado esses limites ao estatuto do banco.

Na época, como representante eleita dos empregados no Conselho e dirigente sindical, fui a única a votar contra. Argumentei que cláusulas trabalhistas não devem constar no estatuto de uma empresa, pois isso fere o direito à livre negociação. Infelizmente, mesmo com pressão das entidades para a revogação da medida, a decisão foi tomada, engessando direitos conquistados ao longo de décadas de mobilização.

Em 2023, já como presidenta da Caixa, determinei a elaboração de uma proposta para atualizar o estatuto, excluindo a cláusula que trata do teto de custeio do Saúde Caixa. O novo texto foi encaminhado ao Conselho de Administração após minha saída, em 2024. Contudo, o estatuto publicado em março de 2025 manteve o limite, frustrando expectativas de avanço.

O cenário da saúde suplementar

O debate sobre o teto de custeio permanece central, mas é preciso ampliar o olhar para os desafios enfrentados pelo sistema de saúde suplementar como um todo. A perenidade de planos como o Saúde Caixa está diretamente ligada a fatores estruturais que pressionam o setor:

  • Concentração de mercado: poucas operadoras dominam o setor, dificultando negociações e elevando os preços.
  • Aumento da expectativa de vida: mais demanda por atendimentos complexos e de longa duração.
  • Novas tecnologias e medicamentos: avanços importantes, porém de alto custo.
  • Uso frequente: beneficiários mais conscientes recorrem ao plano até para demandas simples.
  • Fraudes e desperdícios: exames e procedimentos desnecessários.
  • Inflação médica: reajustes sempre acima da inflação oficial.

Além disso, o Saúde Caixa enfrenta desafios internos como a redução do número de empregados ativos, judicializações que geram insegurança jurídica e uma governança centralizada, com pouca transparência e participação efetiva dos beneficiários.

Propostas para a sustentabilidade do Saúde Caixa

Sem renunciar à premissa básica de que a negociação com a direção do banco só será razoável se houver a retirada do teto de custeio imposto unilateralmente, é possível pensar em medidas estruturantes que promovam qualidade no atendimento com foco na prevenção e não na doença, uso consciente e sustentabilidade financeira. Algumas sugestões:

1.           Implementação de Programa Médico da Família

Seria criado pelo Plano para atender os usuários, com foco na prevenção. Cuidado contínuo e integral, com redução de encaminhamentos desnecessários e menor custo assistencial.

2.           Campanhas educativas permanentes – hábitos saudáveis e uso consciente do plano.

3.           Programa de envelhecimento saudável – ações voltadas a aposentados e idosos.

4.           Aplicativo preventivo – alertas, metas e acompanhamento de saúde.

5.           Linhas de cuidado por perfil – com desenvolvimento de protocolos específicos para mulheres, homens, jovens, idosos e pessoas com deficiência.

6.           Fortalecimento da governança participativa – é fundamental maior transparência e presença dos empregados na gestão e nas decisões estratégicas do plano.

7.           Educação financeira em saúde - com a produção de materiais e oficinas com foco na conscientização, com objetivo de mostrar o impacto do uso do plano nos custos coletivos — incentivando a coparticipação consciente.

Um patrimônio a ser defendido

O Saúde Caixa não é apenas um plano de saúde. É um modelo de cuidado construído com luta, solidariedade e compromisso coletivo. Sua defesa é a defesa de um direito, de um padrão de atendimento e de um princípio básico: a dignidade de quem trabalha e construiu a história da Caixa.

*Rita Serrano é doutoranda em Administração e foi presidente da Caixa. Atuou como representante dos empregados no Conselho de Administração da instituição. É autora de livros e artigos. Em 2023, foi eleita pela Bloomberg Línea como uma das mulheres mais influentes da América Latina.